Finalmente, aconteceu a minha visita ao Alto Douro Vinhateiro e a beleza é tal que podia fazer um artigo só com fotografias e não escrever uma única linha sobre este destino.

Chegámos ao Douro no final da tarde, bem a tempo de apreciar um pôr do sol, à beira da piscina, e afogar o calor numa bebida fresca. Estávamos numa das semanas mais quentes do ano e, realmente, esta não é a melhor zona para ser visitada com temperaturas altas. Nem para mim, que gosto tanto de calor!

A vista para o Rio Douro e para as suas encostas cultivadas de vinha é deslumbrante. Por muito que se tenha ouvido falar da beleza do Douro acho que surpreende sempre. É, na verdade, um local muito bonito e que transmite muita tranquilidade.

Assim, o que dizer desta região tão característica que já ninguém saiba?

Efectivamente, esta não é uma zona muito acessível a pessoas com mobilidade reduzida, principalmente, devido às características do terreno, já que são grandes as inclinações. Mas existem sempre alternativas que tornam possível visitar e ficar a conhecer locais menos acessíveis. Como, por exemplo, percorrer a Estrada Nacional 222, que, segundo um estudo realizado com base no traçado da estrada, é considerada pela Avis a ‘World Best Driving Road’. Não sei se será a melhor para conduzir, mas, para mim é, com certeza, uma das mais bonita que já percorri! Trata-se do troço entre Peso da Régua e o Pinhão que nos dá uma visão deslumbrante do rio, das suas encostas em socalcos, desenhadas pelas vinhas e das quintas produtoras de vinho. Um passeio a não perder!

O que fazer no Douro

Como não podia deixar de ser, reservámos algum tempo para fazer um pequeno percurso no rio, Pinhão – Tua – Pinhão, num tradicional barco Rabelo. A entrada no barco foi pacífica, no entanto, possível apenas com ajuda. O passeio é muito bonito e dá-nos outra perspectiva das quintas e das suas vinhas, onde vamos percebendo o enquadramento e a sua dimensão.

O passeio durou duas horas, ida até ao Tua e regresso. Apanhei o barco no Cais do Pinhão onde deixei o carro, o que aconselho, pois o terreno até aí é de grandes inclinações.

Viajei com a companhia Magnífico Douro, mas tratei de tudo, ainda em casa, com a empresa Douro4all, que recomendo. Trata-se de uma plataforma de serviços que proporciona experiências inclusivas na região do Douro, sejam visitas, alojamento, cruzeiros ou provas de vinho. Qualquer que seja a necessidade da pessoa, a Douro4all propõe a melhor opção ou desenha uma solução à medida de cada um.

Os amantes de estações ferroviárias não podem perder uma visita a uma das mais bonitas do país, a Estação Ferroviária do Pinhão, construída no século XIX que conta a história da produção do vinho através dos seus painéis de azulejos espalhados ao longo das paredes.

Outra hipótese, que acredito seja muito agradável, é fazer o percurso no Comboio Histórico do Douro. No entanto, acho que é impossível para quem se desloca em cadeira de rodas. Enviei um mail ao Conselheiro para o Cliente com Necessidades Especiais da CP, a questionar dessa possibilidade, mas não obtive resposta alguma. 

São muito frequentes as paragens pelos vários miradouros desta região, justificadas pelas espectaculares vistas que oferecem. Não visitámos nenhum, já que tínhamos uma vista magnífica do nosso hotel. Fica, então, a sugestão do Miradouro de Casal de Loivos, um dos mais falados, pois tem uma vista panorâmica sobre o Pinhão e o rio Douro. 

Património da Humanidade da UNESCO

É no Alto Douro Vinhateiro que se produz um dos vinhos mais famosos do mundo, o vinho do Porto. Mas esta não é a única razão pela qual esta região é conhecida.

As suas paisagens, o aproveitamento do terreno tornando-o rico e produtivo e a construção de corredores em socalcos, suportados por paredes de xisto, onde se plantam as videiras, valeram a consagração a Património da Humanidade como paisagem cultural, viva e em evolução pela UNESCO em 2001.

E, permitam-me mais uma sugestão: visitar o Museu do Douro que nos dá a conhecer toda a história, identidade, cultura e evolução desta região. O Museu do Douro situa-se na cidade de Peso da Régua no edifício, reabilitado, da Casa da Companhia, a antiga “Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro”. Todo o museu é acessível a pessoas com mobilidade reduzida.

Alojamento no Douro

Ficámos hospedados no Delfim Douro Hotel que tem uma localização e uma vista privilegiadas. Muita simpatia e profissionalismo, assim como cuidados extremos em relação à limpeza devido à actual situação de pandemia.

O hotel tem boas acessibilidades e lugares de estacionamento, mesmo à porta, para pessoas com mobilidade reduzida, pelo que, assim que cheguei, bloquearam logo um para mim. A piscina é de fácil acesso não tendo, no entanto, um mecanismo de auxílio para entrar na água, como aliás é frequente em Portugal. O quarto é muito espaçoso, assim como a casa de banho, equipada com barras e com banco de parede no duche. Um pequeno pormenor, que estraga tudo, e para o qual deixei uma nota no hotel, é que o banco do duche tem uma barra que fica nas nossas costas não nos permitindo encostar e sentar com segurança. Receberam a minha sugestão com muito interesse e, uma vez que facilmente se pode solucionar, espero que já esteja resolvido!

Para finalizar a nossa estadia, decidimos reservar uma noite na Quinta do Vallado com direito a visita à adega e prova de vinhos. Depois de marcar tudo e de confirmar todas as acessibilidades, foi com muita surpresa que, ao chegar a um sítio lindíssimo, com uma decoração daquelas que queríamos em nossa casa, pessoal muito simpático, tudo no lugar … menos … o quarto adaptado!! que, simplesmente, não existia!

As férias acabaram um dia mais cedo, com tristeza por ainda acontecerem situações destas, principalmente, em lugares onde já não é suposto. O facto das áreas serem grandes não torna os quartos adaptados. Aqui, deixei as minhas sugestões para uma adaptação fácil sem necessidade de alterar nada nem de descaracterizar a decoração existente. Ficou a promessa de o fazerem o mais breve possível e de me contactarem a dar conhecimento, pelo que estou a aguardar.

Um dos objectivos era fazer aí uma prova de vinhos o que acabou por não acontecer, mas existem quintas e adegas acessíveis. Fiz uma pesquisa e alguns contactos pelo que deixo aqui uma sugestão, (não comprovada por mim):

Quinta do Seixo com um elevador que permite que pessoas com mobilidade condicionada tenham acesso a todos os patamares da adega e, na sala de provas, no final da visita, há uma casa de banho adaptada.

Foram dois dias de descanso e muita tranquilidade.

O Douro é um destino a repetir até porque, segundo dizem, é uma zona que difere muito consoante a época do ano, sendo que o Outono lhe dá um tom alaranjado que merece ser registado!

Mas, ninguém como Miguel Torga para nos descrever, magistralmente, a beleza do Douro nos seus poemas, nomeadamente, num que é, sem dúvida, o meu preferido:

São Leonardo da Galafura

À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.

Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!

Miguel Torga

JustGo!!

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2 Comments

  1. Carlos Feixa Reply

    Excelente artigo. Como também tenho mobilidade reduzida há pouco tempo e para sempre, temos de aproveitar as dicas para viajar por este país que tão pouco liga a pessoas como nós.
    Muito obrigado

    • Sofia Reply

      Obrigada Carlos.
      Espero que as minhas dicas sejam úteis.
      Há que aproveitar este país que tanto nos oferece.
      Boas saídas!!

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