Desabafos de uma optimista… Acessibilidade? Será mais difícil planear cinco dias no Algarve do que uma viagem à China de quinze dias?

Para quem viaja pelo Mundo, estando numa cadeira de rodas, parece relativamente fácil partir durante cinco dias rumo ao Algarve.

Como já é hábito, costumamos tirar uns dias em setembro, longe da confusão, para fazer praia. Ora, então, vamos lá, o que é preciso?

Acessibilidade? Reservar Hotel

Vai parecer estranho, mas seria normal escolher primeiro a zona para onde queremos ir e depois achar um hotel que sirva os nossos interesses. Pois, começa assim, mas a maior parte das vezes vou tendo que ver vários hotéis acabando por ficar longe do sítio para onde gostava de ir.

Variáveis:

  • O objectivo seria arranjar um hotel próximo da praia para conseguir deslocar-me até lá sem ter que usar carro;
  • Outra opção, neste caso, é arranjar um quarto com kitchenette para fazer refeições ligeiras durante o dia;
  • E, claro, um hotel acessível com quarto adaptado!

Parecem muitas variáveis, mas se pensarem no número de hotéis, no Algarve, com estas características, principalmente com quatro estrelas (não por eu precisar, mas porque é garantia de conseguir um hotel adaptado), vão ver que são muitos.

Mas o problema é que as variáveis não ficam por aqui:

  • Há que conseguir que o percurso hotel-praia não tenha obstáculos para que eu o consiga fazer sozinha;
  • Há que garantir que a praia é praia acessível, como é óbvio!;
  • E, há que garantir que o quarto adaptado está disponível;
  • Posso ainda colocar outra variável que complica tudo muito mais, que é o preço não ser muito alto!!

Após várias tentativas e com a experiência que já tenho, lá consegui.

Reservámos o Hotel Vila Galé Atlântico, para onde liguei e confirmei a disponibilidade do quarto adaptado e as acessibilidades do hotel.

Assim que chegamos ao hotel começa a dança da acessibilidade.

O quarto não tem kitchenette. Dirijo-me à recepção onde me dizem que, efectivamente, todos os quartos do hotel têm kitchenette menos aquele. Informação que não está em lado nenhum, nem no site do hotel! Aliás, aqui, na página inicial, pode ler-se: “…Todos têm kitchenette, sendo ideais para famílias com crianças.”.

A casa de banho tem barras na parede, mas não tem banco para o duche. Após ter que o pedir duas vezes, chega finalmente um banco sem qualquer estabilidade nem segurança, pelo que tenho que pedir uma cadeira de plástico, do jardim, recurso a que tenho que recorrer muitas vezes! A barra na sanita está muito afastada o que para mim não foi problema, mas para uma pessoa de estatura mais pequena sê-lo-ia com certeza.

Com tudo isto, perdemos umas horas, mas ainda conseguimos ir até à praia.

No dia seguinte, chegamos à sala do pequeno almoço e deparamo-nos com dois degraus … foi quando nos avisaram que teria que ir pela rua e entrar pelo terraço. Não será uma opção para o Inverno!

Acessibilidade? Actividades

Porque não visitar as grutas de Benagil?

Faço uma pesquisa de companhias que fazem o passeio de barco pelas grutas da costa algarvia e envio um mail a perguntar da possibilidade de o fazer em cadeira de rodas. Recebo logo uma resposta, muito simpática e clara, da empresa Benagil Express, onde informam que sim é, possível e que tenho duas alternativas, ou entro no barco na praia do Carvoeiro, mas, para isso, terei que me passar para a cadeira anfíbia, que anda na areia, e depois passarem-me para dentro do barco, ou partir em Portimão e, nesse caso, poderei entrar com a minha cadeira no barco. Óptimo! Escolho esta opção e faço a marcação escrevendo nas observações, como me foi sugerido, que uma das pessoas iria em cadeira de rodas.

Foi ainda referido que teria uma casa de banho adaptada no Clube Naval de Portimão, o local onde teria que apanhar o barco.

Ao chegar, houve alguma surpresa ao verem-me, já que não leram as observações da reserva, mas disseram, imediatamente, que não havia problema pois só teriam que mudar de barco. Este procedimento atrasou o passeio em meia-hora, sendo que, afinal, o barco indicado não estava em condições pelo que tivemos que ir num outro. Todas as pessoas, que esperavam, foram compreensivas e ainda brincaram com a situação dizendo que tínhamos direito a um passeio maior devido ao contratempo.

Para entrar no barco, fui passada com a cadeira no ar tendo a ajuda de várias pessoas o que implicou um risco. Não sei se o barco próprio teria outra forma de entrar, mas suponho que sim.

Apesar do atraso o passeio correu bem, foram todos muito simpáticos e muito prestáveis.

Acessibilidade? Ir à praia

Antes de ir, consultei a lista de praias acessíveis em 2020, do INR, para saber quais as praias a que poderia ir e ter apoio. Segundo a lista, existem na região hidrográfica do Algarve, 45 praias costeiras acessíveis, em que a maioria delas tem cadeira anfíbia e serviço de apoio ao banho, sendo uma delas a praia da Galé que estava próxima do hotel escolhido.

Aqui começam as complicações. Ao chegar à praia, no primeiro dia, perguntamos se podemos usar a cadeira ao que respondem que sim, mas tivemos que pedir que nos ajudassem uma vez que reparámos que não o iam fazer. Ajudaram, mas com alguma reserva. Na altura, pensei que seria devido ao COVID-19.

No dia do passeio de barco, resolvemos ir à praia do Carvoeiro e os nadadores-salvadores disponibilizaram-se logo para ajudar e foram impecáveis.

No dia seguinte, fomos dar um passeio até Altura, onde vi que as condições da praia eram muito boas pelo que resolvi ir ao banho. Aqui, o coordenador dos nadadores-salvadores não foi nada simpático, não queria ajudar e ainda vem com a conversa, sobre o Decreto-Lei n.º 24/2020, de que eu e o meu marido teríamos que usar uma viseira. Não percebi a conversa e não me fez sentido, pois se não querem ajudar, temos que usar uma viseira para proteger quem? Entretanto, um dos nadadores-salvadores acabou por ajudar, mas foi uma situação muito constrangedora que não me deu prazer e só me apeteceu vir embora.

Fui, então, ler o Decreto-Lei n.º 24/2020, que Regula o acesso, a ocupação e a utilização das praias de banhos, no contexto da pandemia da doença COVID-19, para a época balnear de 2020, onde no Artigo 25.º ponto 3, diz:

  • No acompanhamento de pessoas com mobilidade reduzida, deve ser garantido o cumprimento dos procedimentos de higiene e segurança, nomeadamente higienização das cadeiras anfíbias após cada utilização, colocação de viseira, pelo utente e acompanhante.

Aqui ficam algumas dúvidas:

  • Quando indicam que a praia tem cadeira anfíbia e serviço de apoio ao banho, isso quer dizer que ajudam a entrar e sair da água?
  • Onde se lê “No acompanhamento..” quer dizer que acompanham e ajudam? Ou ficam apenas a olhar?
  • Se não ajudam para que é necessário ir com uma viseira?
  • Como é que se mergulha com uma viseira na cara?

Realmente, ir à praia já é um processo muito complicado, mas, desta vez, foi um desafio ainda maior com o brinde de ter que levar com antipatia e desagrado de pessoas a quem é suposto darem-nos exactamente o contrário. Compreendo que estamos a passar uma época complicada, mas pede-se que haja bom senso.

Como é obvio, em todas as praias onde estive observei-os atentamente, e vi muita proximidade com outros banhistas sem estarem com alguma proteção, aliás, muito mais proximidade do que aquela que é necessária para me ajudarem. Tudo isto me deixou baralhada, afinal se não é pelo COVID-19 então terá sido má vontade, não?

Mas o que interessa é que consegui ir ao banho e só não fui num dos dias por causa da ondulação!

Conclusão

É mesmo mais difícil e muito frustrante planear cinco dias no Algarve do que uma viagem à China de quinze dias. Podem crer que é verdade!

É verdade e é muito triste. O JustGo é um espaço de divulgação de boas práticas de turismo acessível, mas, por vezes, é muito cansativo passar por todas estas situações e só falar do que está bem.

Acessibilidade? Podia chegar aqui e falar do hotel que, efectivamente, tinha acessibilidades, não as melhores mas tinha, e falar das praias com acesso e cadeira anfíbia, que, realmente, existiam, assim como falar de um passeio de barco muito agradável que foi possível para quem está em cadeira de rodas. Mas, acessibilidade, não é só isto. Acessibilidade é muito mais!

A minha comparação com o planeamento de quinze dias na China foi porque fiz uma viagem em que todas as reservas de hotel e transportes correram muito bem, mas problemas destes eu tenho em quase todas as viagens que faço. De facto viagens a grandes cidades e capitais são sempre mais certas de não terem grandes surpresas, mas nunca esperei chegar a um hotel em Amesterdão e não haver um banco para o banho.

Como costumo dizer, já muito foi feito, mas há, ainda, muito a fazer!!

JustGo!!

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